segunda-feira, 27 de julho de 2009

Segunda-feira: Uma relação de amor e ódio


Odeio, na segunda feira, a vadiagem que ainda resiste dentro de mim. Como se o domingo ainda não tivesse acabado. Como se o dia de ontem tivesse sido tão extraordinariamente bom, quanto a minha vontade de ainda tê-lo. Não foi bom. Mas também não foi ruim. Foi um dia de nada.
Amo, na segunda feira, a conformidade que se entrelaça com a rotina, dentro de mim. A casa que acorda com um certo vigor. O barulho do portão que se abre para a minha funcionária entrar. A ordem judicial que decretamos contra a bagunça: "Bagunça, você tem só até o meio dia para deixar este recinto." Amo as roupas lavadas no varal com cheirinho de amaciante. E o arroz com feijão - muitas vezes sem carne- acompanhado de um ovo frito, bem frito, com aquela casquinha crocante. A simplicidade gastronômica que o nosso estomago pede, para se recuperar da comilança desenfreada do domingo. Isso eu amo.
Odeio, na segunda feira, a falta do sonho. Não consigo misturar a vida com a poesia. Não consigo viver dois tempos, embora saiba que sou feita de muitos tempos, muitos sonhos e muitas vidas. Odeio na segunda feira, a angústia da conformidade. Porque a minha conformidade vem acompanhada de uma certa angústia. Não a angústia existencial, mas a “angústia material”. Aquela angústia que é palpável, que tem nome, R.G. e CPF. Angústia pelas coisas que não consigo resolver, pelas coisas que não quero me envolver, pelas atribuições que não desejo me atribuir e que, no fundo, sei que são minhas.
A segunda feira me lembra que existem situações à minha espera, há séculos. E que talvez, elas se petrifiquem, sem que eu as toque com a minha mão mágica.
Amo, na segunda feira, a universalidade de todos os povos, de todas as gentes, de todas as terras. Os ricos e os pobres, os latifundiários e os proletários, até os indigentes e os andarilhos sabem que segunda feira é dia de produzir mais: mais dinheiro, mais trabalho, mais milhas, mais paz e mais guerras. A marca da segunda feira é a produção, seja no capitalismo, no socialismo, em qualquer “ismo.”
Ninguém escapa da síndrome da segunda feira; a segunda feira é o dia em que não conseguimos nos enganar , nem mesmo com uma linguagem de poesia romântica ou de prosa comovente.
Segunda feira é dia de varrer as ruas e juntar o lixo nas esquinas.
É dia de abater os bois nos matadouros.
É dia de levantar paredes nas casas.
É dia de curar feridas nos consultórios.
É dia de verificar o extrato no banco.
É dia de levar nos lombos uma carga pesada: a carga da maldição do Éden: “ com o suor do seu rosto comerás o teu pão.”
Até que Deus foi generoso na sentença: bastava tomar um pedaço de terra – porque a terra era de todos – semear, moer o trigo, fazer o pão e comer. Simples assim. Eu comeria o meu pão e você comeria o seu. O pão sem margarina, sem presunto, sem queijo. Porque o paladar se acostuma com aquilo que você lhe oferece e depois exige aquilo com que você o acostumou.


Ana Maria Ribas Bernadelli

 Engenheiros Do Hawaii - Segunda- Feira Blues II

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